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10 de Junho de 2018

Discurso do Embaixador de Portugal no Brasil por ocasião do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

Brasília, junho de 2018

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Brasília, 7 de junho de 2018.

Meus caros compatriotas,

Prezados amigos,

Em nome da minha mulher e em meu nome, gostaria de os saudar todos, dizendo que é, para nós e para toda a equipa desta Embaixada, uma imensa honra e uma enorme satisfação poder recebê-los esta noite para comemorarmos, juntos, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades portuguesas. A minha primeira saudação vai, naturalmente, para a comunidade portuguesa e luso brasileira no Brasil, mas também para as autoridades brasileiras que sempre tão generosamente nos recebem e acolhem, neste pujante país onde nos sentimos em casa.

Eu poderia começar por falar do crescimento de 67 % nas exportações portuguesas para o Brasil, no primeiro trimestre de 2018.

Poderia referir que os vinhos portugueses ocupam já o 2º lugar nas preferências de consumo dos brasileiros, tendo ultrapassado recentemente outros exportadores que não me ficaria bem nomear.

Poderia mencionar que o  Turismo brasileiro para Portugal aumentou quase 50 % no ano passado, sendo provável que, em 2018, seja atingida a impressionante marca de 1 milhão de visitantes brasileiros no nosso país.

E poderia, também, destacar os 14.000 estudantes brasileiros que frequentam as universidades portuguesas, em reconhecimento da qualidade do nosso ensino superior e da excelência dos nossos centros de investigação.

Poderia, ainda, enumerar as múltiplas visitas de governantes portugueses ao Brasil, visto que, somente nestes cinco primeiros meses de 2018, tivemos connosco 3 Ministros, 5 Secretários de Estado, para além do Presidente do Governo Regional dos Açores.

Poderia falar de tudo isto e… a verdade, é que, subtilmente, já o fiz.

Mas hoje, caríssimos amigos, gostaria, sobretudo, de me inspirar nas palavras de Caetano Veloso que disse, um dia, o quanto gostava de sentir a sua língua roçar a língua de Luís de Camões. Estou certo que o grande poeta gostaria, se fosse vivo e se hoje não celebrássemos 438 anos passados sobre a sua morte, de ouvir tais palavras sobre a sua língua, a língua portuguesa, a nossa língua, que ele tão bem cantou.

Talvez Camões até enjeitasse as especiarias da Índia e, num arremedo luso-tropical, concordasse com o seu colega escritor contemporâneo, Valter Hugo Mãe, que, em 2015, numa audaciosa hipérbole, afirmou que “a melhor coisa que os portugueses ajudaram a fazer, foi o Brasil”.

A desmesura desta frase ilustra bem todo o imenso orgulho que nós, portugueses, sentimos perante a herança que aqui deixámos, neste imenso país, cujo pleno potencial sabemos estar ainda por vir.

Se alguns afirmam que se vivem tempos de menor confiança no Brasil, nós, portugueses, temo-la de sobra. Para dar e vender, como se costuma dizer. Confiança inesgotável que brota de um grande orgulho. Um desmedido orgulho, numa história comum, de mais de 500 anos, que hoje também celebramos.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Não trato de nostalgia nem de sentimentalismo. Trato de uma visão objetiva sobre uma história feita por homens e mulheres corajosos, tenham sido eles navegantes, bandeirantes, comerciantes, fazendeiros, artesãos ou diplomatas, que acharam, desbravaram e consolidaram as fronteiras deste descomunal território, proporcionando ao Brasil a sua atual dimensão, a maior biodiversidade do planeta, o inestimável património da partilha duma língua comum, que hoje é global.

A língua portuguesa que é a mais falada em todo o Hemisfério Sul. A única língua que, a par do inglês, tem dispersão verdadeiramente mundial, sendo idioma oficial de 9 países – unidos na CPLP, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – a cujos representantes aqui presentes endereço um especial e fraternal abraço.

Como não se cansa de repetir o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, “a língua portuguesa não é a língua dos portugueses. É, certamente, a língua de Fernão Lopes e do Padre António Vieira, como é de Machado de Assis e João Guimarães Rosa, de Luandino Vieira e Mia Couto, de Clarice Lispector e Germano de Almeida”, que este ano, e muito bem, levou o cobiçado Prémio Camões para Cabo Verde, onde se realizará, por sinal, a próxima Cimeira da CPLP, já em julho próximo.

Cultivamos e acarinhamos a Língua Portuguesa em todas as suas latitudes e também, muito especialmente, aqui no Brasil, onde realizámos no mês passado o primeiro encontro das Cátedras Portuguesas em funcionamento em Universidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Belém do Pará e aqui em Brasília.

E quem fala da Língua, fala da cultura e das artes, e da intensa convivência, nos últimos anos, entre músicos dos dois lados Atlântico, uma alegre quadrilha onde:

António Zambujo canta Chico Buarque que canta com Carminho que canta Tom Jobim e Raquel Tavares canta Roberto Carlos… e muitos outros que, como no célebre poema de Carlos Drummond de Andrade, ainda estão para entrar nesta história.

Já no cinema, Paolla Oliveira contracena com Ricardo Pereira num filme português que estreou no Brasil no mesmo mês em que uma coprodução luso-brasileira venceu o Grande Prémio da Semana da Crítica, em Cannes.

Não me quero alongar mas também não quero calar o orgulho que é ver os nossos dois povos a reaproximarem-se, a redescobrirem-se, a reconhecerem-se mutuamente, numa nova etapa, mais madura e mais produtiva, deste relacionamento transatlântico.

Trabalhamos todos os dias, nesta Embaixada, para suplantar ideias desatualizadas e para que possa assomar a imagem de um Portugal moderno, estável, equilibrado e tranquilo, cosmopolita e diversificado, acolhedor, competitivo, tecnologicamente muito avançado, criativo, atrativo e ganhador.

É esse o desígnio estratégico da nossa ação diplomática no Brasil. É esse o ciclo de mudança que queremos ver concluído até 2022, quando celebraremos, mais juntos que nunca, os 200 anos da Independência do Brasil.

Minhas Senhoras e Meus Senhores, caros compatriotas

No âmbito desse esforço conjunto, que é tanto público, como privado, gostaria de agradecer, mais uma vez, reconhecidamente, a todas as empresas, já hoje aqui referidas, que permitiram, generosamente, através de diversos apoios e patrocínios, que as comemorações desta noite fossem possíveis.

Gostaria, além disso, de deixar o meu vivo reconhecimento à equipa da Embaixada que, com profissionalismo, dedicação e entrega, cuidou de todos os preparativos para esta festa.

Caríssimos,

Não quero, por fim, deixar de expressar profunda gratidão e enorme orgulho que genuinamente sentimos pela vastíssima comunidade portuguesa e luso-brasileira, espalhada desde o Amazonas à Serra Gaúcha, que presta, diária e incansavelmente, um valioso contributo para a afirmação de Portugal nesta região do globo e para o estreitamento das relações bilaterais com o Brasil.

É já na próxima semana, a 15 de junho, que o nosso país entra em campo para disputar o primeiro jogo no Mundial de Futebol ou “Copa do Mundo”. Não vejo melhor forma de comemorar o Dia de Portugal que através de uma vitória da nossa seleção.

E como ambição não nos falta, como também nunca nos faltou ousadia, faço votos para que as seleções de Portugal e do Brasil se encontrem só na grande final, em Moscovo. Para que a Comunidade Luso-Brasileira possa vibrar ao máximo com os lances de Cristiano Ronaldo e Neymar. E para que a Língua Portuguesa se faça ouvir bem alto, na Rússia, dentro e fora de campo.

Viva o Brasil! Viva Portugal!